É lugar comum ouvir sobre violência contra crianças e adolescentes. Nos deparamos com essa informação com sinais de lamento, desconforto e ojeriza. Para muitos, o fato termina nesses sentimentos, como se fosse algo distante, que fizesse parte do triste mundo dos outros e não do nosso. Após alguns olhares de tristeza, voltamos a nos calar, como se aí parasse e estagnasse todo o problema. Talvez por achar que o assunto é indigesto demais para nossos estômagos ou por ser algo que fere a alma e nos traz recordações que preferimos esquecer.
O que quero trazer para pensarmos é a postura de divulgação de dados, de construção de informações e de educação permanente para crianças, adolescentes e adultos. A finalidade é fortalecer a rede de proteção e remover o véu de um assunto que envolve fatos tão ácidos.
Há alguns dias tive acesso aos dados sobre violência contra crianças e adolescentes do meu município. Não são dados tão diferentes ao que se observa no restante do Brasil. Ao ler as informações fique pensando como o conhecimento sobre o assunto empodera os atores. Quanto mais sei sobre o assunto e como os envolvidos se comportam, mais condições tenho de atuar para diminuir a incidência desses casos.
O conhecimento é uma das melhores armas para nos defendermos das dificuldades e perigos que enfrentamos na vida. Conhecer a realidade que nos rodeia, mesmo que ela não seja a nossa realidade, nos ajuda a lidar com as intemperes da vida, quando somos expostos ao lado de fora de nossa bolha familiar ou social.
Percebo que muito se fala quando um caso específico, devido a algum requinte de violência, vem à tona. Porém, os casos acontecem TODOS OS DIAS. E se não atinge alguém que nos cerca, começamos o ciclo de lamentar e aumentamos o risco de aceitá-lo em nosso dia a dia.
Discussões sobre este assunto devem fazer parte da rotina. Devemos tirar a imagem de assunto proibido, pois conhecimento fortalece e um dos conhecimentos em questão é lidar, tanto em casa, quanto no ambiente escolar, da educação sexual.
Aproveito o momento pra lembrar que educação sexual tem um enfoque específico para cada idade e que falar sobre educação sexual não é ensinar a fazer sexo, nem estimular danças erotizadas ou mostrar pornografia. Crianças e adolescentes devem conhecer seu corpo. Eles devem ter noções de privacidade. Devem ser orientadas quanto ao fato que ninguém tem permissão para tocar em suas partes íntimas. Elas devem ser estimuladas a entender que há diferenças entre toques de afeto e toques abusivos. Devem aprender como pedir ajuda em caso de perigo. Também devem ter o direito de ter suas perguntas respondidas, de acordo com a faixa etária, com honestidade e qualidade. Precisam conhecer o que é direitos humanos, uma vez que são humanos! Merecem conhecer as diferenças entre as pessoas e saber respeitar essas diferenças, pois elas também podem ser vistas como diferentes pelo outro. Uma educação sexual de qualidade pode ajudar a proteger crianças e adolescentes da violência sexual.
Acima de tudo, a educação sexual deve, assim como várias outras áreas de educação, trabalhar a AUTO-ESTIMA da criança. Crianças e adolescentes devem ser estimuladas a identificar quando estão sendo intimidadas e se sentir seguras para reclamar ou pedir ajuda.
No meu município, em 2016, foi retirada do "Plano Municipal de Educação" as metas e estratégias que abordam os temas transversais como diversidade sexual, de gênero e sexual. Não sei se isto aconteceu na cidade onde você mora. Acredito que isto ajuda a enfraquecer a rede de proteção que se tenta construir quanto ao emponderamento e segurança das crianças e adolescentes. Já que nosso sistema político atuou desta forma, de certo modo, devido a nossas escolhas e omissões, devemos ficar mais atentos, como pais e responsáveis, ao nosso papel, agora um pouco mais solitário, de proteção a aqueles que amamos, criando seres com auto-estima e comportamento pessoal e social que os torne capazes de se defender da violência que os ronda.
Ana Paula da Silva Ramos.
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